Deixar-se conduzir pelo Espírito Santo – Padre Geraldo Trindade

O ser humano é eminentemente um ser
espiritual, criado para Deus e por isso impulsionado para o divino, para elevar
suas preces ao Altíssimo e convidado a crescer nesta relação, que se chama
espiritualidade. A vida do cristão católico deve se abrir para a história de
Jesus Cristo, que realizou e realiza no mundo a salvação. Cada um é convidado a
viver de forma única e plena a história da salvação. Esta experiência é
comunicada e proporcionada pela vida no Espírito. Somente a fé robustecida pela
Palavra de Deus e pelo ensinamento da Igreja abre as portas da esperança e do
alento aos desígnios do Senhor.
            A ação do Espírito
antecede à nossa existência e à nossa ação. Por isso a vida espiritual se
constrói a partir do Espírito, que age em meio à nossa humanidade vulnerável,
porém santificada pela encarnação do Verbo de Deus. “(…) Nascendo o Senhor
Jesus Cristo verdadeiro homem, sem nunca deixar de ser verdadeiro homem, sem
nunca deixar de ser verdadeiro Deus, constituiu em si mesmo o início de uma nova
criatura (…)” (Sermão sobre o Natal do ano de 451). Assim, vida espiritual é
também vida “por Cristo, com Cristo e em Cristo”. Unidos a Ele se experimenta
radicalmente a vida no Espírito. Cristo toca a humanidade para que pecadores
possam tocar o divino! O rosto de Cristo deve nos encantar e seduzir! A
qualidade de nossa vida espiritual está escondida em Cristo porque balbuciamos
preces e buscamos sua glória, nós O amamos mesmo não O vendo pelos olhos da
carne. Cristo se oculta nos mistérios de seu nascimento, vida, paixão, morte e
ressurreição. Mas estes grandes mistérios não nos afastam dEle, mas nos
impulsionam a ir ao Seu encontro. Sem Cristo não há vida espiritual, sem Ele o
Espírito não age, não transforma corações e vidas. Ele é o sumo e eterno sacerdote,
que se dá de forma esplêndida e total na Santíssima Eucaristia, realizando
perenemente o sacrifício redentor. Cristo que se entregou uma vez para sempre
se oferece todos os dias à bondade do Pai para nos integrar na mesma oferenda
cotidiana. Viver no Espírito é associar-se a este gesto de amor e vivê-lo todo
dia e a cada hora. A vida no Espírito é eminentemente eucarística, é entrega
também como a de Cristo, capaz de transbordar em amor que se traduz em caridade,
alegria, paz, paciência, gentileza, bondade, fidelidades, piedade, compaixão,
misericórdia, doçura, autodomínio, dádiva… (cf. Gl 5, 22)
            Dessa forma,  a vida espiritual  entra no grande mistério de uma vida
trinitária, que se rege não por critérios humanos, nem por experiências
psíquicas, morais, racionais ou científicos; mas pela docilidade às moções do
Espírito. A vida espiritual nasce do Pai, fonte de todas as bênçãos! Ele nos
gera em seu Filho, Jesus Cristo. Somos filhos no Filho e identificados com
Jesus pelo Espírito Santo.  É preciso
deixar com que este mistério alcance-nos pela fé, pois a partir dela se vive o
cristão.
            Grande é a riqueza de
uma vida no Espírito e se experimenta este dom de diversos modos e por isso
esse tesouro deve ser experimentado nos diversos traços da existência e no
deixar-se conduzir pela ação do Espírito. Para isso é preciso ousadia,
parresia. Ficam as perguntas: É-se capaz de encarnar uma vida no Espírito?
Está-se disposto a se lançar de corpo, alma, vida, palavra, atitudes pessoais e
relacionais?
            É preciso que se
proponha reconstruir a identidade interior, resgatar o mistério da vida por
meio da escuta da Palavra de Deus e da participação na Eucaristia. O Senhor
irrompe a vida cotidiana de formas e modos variados e interpela a realizar Sua
vontade.  Assim se realiza a promessa:
“Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”
(Rm 8, 14). Tornando-se uma única pessoa com Cristo, compartilha-se com Ele e
seu Espírito os frutos de serem filhos amados, resgatados e salvos pelo batismo.
Quem se deixa guiar pelo Espírito empreende o bom combate da fé (cf. 1 Tm 6,12)
para vencer o mal e o pecado e viver a vida na graça divina.
            O Espírito Santo age e
realiza a obra de Deus quando cada um se propõe a renegar a si mesmo, a lutar
contra todas as vaidades e egoísmos num espírito de liberdade interior. Para
dizer sim à ação do Espírito é preciso um veemente não a tudo aquilo que é
contrário à vontade de Deus. Essa atitude é porta aberta para a ação do
Espírito! É preciso deixá-Lo que conceda seus dons e guie os destinos da vida. “(…) Não há maior liberdade do que a de se
deixar conduzir pelo Espírito, renunciando a calcular e controlar tudo e
permitindo que Ele nos ilumine, guie, dirija e impulsione para onde Ele quiser.
O Espírito Santo bem sabe o que faz falta em cada época e em cada momento. A
isto chama-se ser misteriosamente fecundos!” (Evangelii Gaudium, 280). Dessa forma, torna-se
templo e morada do Espírito Santo. Este grande tesouro carregamos por meio da
fé e poucos se dão conta. O Espírito guia dando à vida o sabor, o vigor, a luz
que não deixa ninguém caído, mas fortalecido porque se é filho de Deus. Por
meio de sua ação se é convidados a ser adorador de Jesus e a rever a vida arrependendo
dos pecados e se tornando livre e novo pelo amor.

Geraldo Trindade
Padre na Arquidiocese de
Mariana, vigário paroquial da
 Paróquia de Nossa Senhora de Fátima em Viçosa(MG)

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